O novo luxo da moda: o Consumo Consciente


Matéria do jonal: O Prefácio

Com a carteira no bolso, os consumidores da alta costura tendem, após o confinamento, a dar mais valor aos pequenos produtores e a querer entender os produtos, os processos de confecção e as marcas.

Desde a chegada do coronavírus no Brasil, confirmação que ocorreu em 26 de fevereiro, o país atravessa um período em que diversas medidas para conter a disseminação da Covid-19 estão sendo tomadas. Uma delas é a chamada quarentena, que em 06 de junho completou quatro meses de vigência.

Com um longo período de isolamento social para driblar a contaminação do Sars-Cov-2, a economia nacional como um todo começou a entrar em conflito. Um dos recortes das atividades em exercício no Brasil a sentir o impacto da pandemia foi o setor da moda e da alta costura, afinal, seu público-alvo, apesar de integrar a camada mais afortunada da sociedade, também sentiu no bolso o peso do novo coronavírus.

De acordo com a pesquisa realizada pelo Instituto QualiBest em parceria com o marketplace de arte contemporânea ArtSoul e com a consultoria de moda e varejo Back in B, desenvolvida entre os dias 14 e 24 de maio, cujo tema foi “O 'novo normal' do luxo”, houve uma queda de 29% na renda das 405 mulheres ricas da cidade de São Paulo ouvidas no estudo. Contudo, a mesma amostra revelou que as pessoas participantes acreditam que suas receitas, após o término da quarentena, irão diminuir 22% em comparação ao período anterior à pandemia.

Como resultado, 83% do público total ouvido pela pesquisa declara estar gastando menos na quarentena. “O ato de consumir e a forma como o realizamos é reflexo da organização da sociedade. O consumismo, por sua vez, é característico do mundo atual e, sem dúvida, o isolamento social afetou as relações de consumo no tempo e no espaço”, comenta a socióloga Ana Carolina Pedro.

Na opinião da coordenadora executiva do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Nova FCSH), Filomena Silvano, para aqueles que possuem o dinheiro necessário para consumir, será preciso munir-se de uma dose muito razoável de culpa para conseguirem mudar os seus hábitos. “No entanto, a crise econômica vai provavelmente associar-se a uma consciência crítica que se adensou durante o confinamento e surgirão, espero, alterações”, estima.

Essa constatação, em adesão ao fato de que 73% do público ouvido pela pesquisa do Instituto QualiBest não vê a moda como prioridade no presente momento, as marcas do ramo terão que se reinventar. Portanto, o primeiro passo para esse processo estará no poder do relacionamento.

Segundo a estilista de moda sustentável Karin Matheus, as marcas do mercado de luxo terão que estreitar e fortalecer ainda mais o relacionamento com os seus clientes, especialmente os fiéis. “Será muito importante ouvi-los, entendê-los e desenvolver produtos que eles desejam de fato comprar nestes novos tempos”, destaca.

Essas medidas para segurar os clientes e, acima de tudo, manter o negócio com uma vida econômica saudável terão, de fato, que ser exercidas de toda forma. Afinal, além da previsão do público ouvido pela pesquisa, um estudo realizado entre XP Investimentos e o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), revelou algo parecido.

Feita entre os dias 16 e 18 de maio, a pesquisa contém a participação de 1 mil pessoas. Desse total, mais de 50% acredita que haverá piora na renda e ampliação do endividamento quando o isolamento social terminar. “Diante dessa conjuntura geral, em associação com o fato dos mercados de moda e artes serem compostos por bens de luxo, a queda na renda impactará de maneira negativa nesses mercados”, prevê o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM, Fábio Andrade.

Em alguns segmentos dessa fatia de mercado o impacto negativo da queda da renda do público da moda e da alta costura já está sendo sentido. No caso do ateliê Flávia Borelli, localizado em Taubaté (SP), houve uma queda de 99% do faturamento, sendo que, antes da pandemia, o estabelecimento rendia entre R$ 7 a R$ 10 mil por mês. Hoje, no entanto, o orçamento está entre R$ 800 a R$ 1 mil. “Antes tínhamos 30 noivas no ano. Com esse cenário, as que tínhamos na agenda suspenderam os pagamentos e adiaram a data. Desde então, não houve mais procura para o ano de 2020”, queixa a estilista e costureira Flávia Borelli.

Vista essa realidade, o economista Fábio Andrade salienta que o trabalho do setor de moda é um caso a parte, o qual em certo sentido reflete a desigualdade que caracteriza nossa sociedade e economia. No segmento de confecção, o economista aponta que, com o advento da terceirização, o trabalho passou a ser informal e a demanda por trabalho, por sua vez, se tornou sazonal.

“Um trabalho informal, de baixíssima remuneração, condições de trabalho degradantes que, em alguns casos, são similares às condições de trabalho escravo. Essa é realidade do mercado de trabalho de confecção, o qual, sob recessão, ficará ainda pior”, avalia o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM.

A partir disso, a perspectiva de futuro para o mercado de moda e luxo é a de que haverá uma quantidade menor de clientes. Porém, os investimentos das marcas se voltarão para tecnologias que cruzam informações de perfil comportamental, estilo e informações pessoais como lugares que frequenta, com quem se relaciona, o que consome, rede de contatos e, finalmente, qual o poder de compra.

“Estas informações darão ao vendedor confiança e assertividade para entender a venda. Dessa forma, mesmo tendo menos compradores ativos por conta da crise, a conversão por clientes deverá ser maior”, estima a estilista de moda sustentável Karin Matheus.

O ambiente estipulado por Karin precisará ser efetivado de fato para a boa manutenção do mercado. Afinal, uma vez que o último DataSebrae sobre "Pesquisa Setor/Segmento Comércio de Vestuário", feito em 2015, constatou que 83,70% do total de 5.746 amostras provém de lojas de rua. Sem o retorno dos compradores, grande parte dessa amostra deverá sucumbir.

Os empresários de moda, portanto, estão de fato muito preocupados diante de tantas incertezas. Muitas lojas e multimarcas receberam mais de 50% da compra da coleção de inverno em fevereiro e os estoques seguem cheios. De outro lado, os gestores do ramo ainda têm de lidar com custos altos com funcionários, aluguel e boletos. Sem caixa, muitos quebraram. Muitos desanimaram.

“O novo momento exige mudanças e nem todos estão emocionalmente, financeiramente e tecnologicamente preparados. Os próximos passos no mercado da moda exigem, portanto, mudanças, investimentos, coragem e disposição para seguir”, declara a estilista de moda sustentável Karin Matheus.

Do ponto de vista econômico, contudo, mesmo vislumbrando o fim do isolamento social, é difícil a elaboração de uma projeção dos setores que se beneficiarão com esse cenário. No entanto, o que há de consolidado na literatura econômica é que momentos de restrição criam consumo reprimido. Assim, o setor de moda e alta costura pode registrar um pico de faturamento nos momentos iniciais da retomada da normalidade.

“Ainda assim, após a euforia imediata, retoma-se a preocupação com a recessão econômica, a qual não será diminuída com o simples retorno das atividades comerciais”, alerta o economista e professor de Relações Internacionais da ESPM, Fábio Andrade.

Mesmo com estimativas desanimadoras, existem camadas do ramo da moda que ainda podem se beneficiar durante quarentena. De acordo com o estudo “O Legado da Quarentena para o Consumo”, feito entre os meses de fevereiro e maio pelo Banco BTG Pactual a partir das buscas e crescimento de compras online, os produtos voltados ao cuidado com a beleza e higiene, como shampoo, perfumes, produtos e equipamentos para alisamento e tranças são alguns exemplos de itens que estão tendo saldos positivos no atual período atravessado pelo Brasil.

A análise do BTG Pactual vai de encontro à pesquisa conjunta entre Instituto QualiBest, o marketplace de arte contemporânea ArtSoul e a consultoria de moda e varejo Back in B. O presente estudo revelou que, enquanto 81% das 405 amostras coletadas já eram adeptas do consumo virtual, 12% aderiu ao modelo de compra durante a quarentena.

Contudo, grande parte das empresas de moda não deram a devida atenção a essa modalidade de negócio e agora, durante o isolamento, está colocando suas plataformas em ordem. “As marcas maiores, as quais dispõem de equipe e verba, rapidamente se posicionaram no ambiente virtual, mas as marcas menores sofrem por serem mais lentas em seus processos”, lamenta a estilista de moda sustentável Karin Matheus. “Eu acredito que o grande desafio agora é oferecer experiência na loja virtual e reverter em venda”, opina.

Do ponto de vista da sociologia, essa mudança de hábito de compra proporciona uma ampla percepção a respeito do privilégio existente no consumo online e traz à tona uma série de reflexões.

“Esse cenário nos faz refletir ainda mais sobre as condições de trabalho a que estão expostos aqueles que fazem entregas a partir de aplicativos, tanto em termos de remuneração quanto de segurança. Nos faz refletir também sobre o que realmente é uma necessidade de consumo e sobre a adoção de produtos de estabelecimentos locais em vez dos grandes mercados e marcas”, comenta a socióloga Ana Carolina Pedro.

A constatação da socióloga é semelhante ao que está sendo observado pelo designer, estilista e artesão Marco Barboza, que enxerga no novo comportamento do público uma mudança no âmbito de consumo. “Essa transformação acaba por não fomentar tanto os grandes grupos, mas, sim, os pequenos produtores, os quais trabalham com as mais variadas artes. Dessa forma, o espaço [de criação e da moda] passa a ter outra leitura, que agora é menos simples, mas mais afetiva”, comenta.

Mesmo com tais estimativas positivas para o mercado da moda, uma coisa deve ser posta em destaque, que é o impacto desse ramo econômico no meio ambiente. Não à toa que o estudo “Global Wellness Trends Report”, de 2019, revelou que a moda é o segundo pior agressor do mundo em termos de poluição da água, além de ser responsável por aproximadamente 10% de todas as emissões de carbono.

“É óbvio que o mundo da moda não pode continuar a atravessar continentes para estar presente nas semanas da moda das principais capitais do mundo. Como esses encontros são momentos performativos muito importantes para dar corpo ao próprio mundo da moda, será importante inventar substitutos”, ressalta a Coordenadora Executiva do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Nova FCSH), Filomena Silvano.

“Moda é comportamento. Se o comportamento muda, a moda muda”, finaliza a estilista de moda sustentável Karin Matheus.


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